Hora de Mudar

A idade e a mudança

A idade e a mudança

LYA LUFT

  

Lya Fett Luft (Santa Cruz do Sul, 15 de setembro de 1938) é uma romancista, poetisa e tradutora brasileira. É também professora universitária e colunista da revista semanal Veja. Iniciou sua vida literária na década de 1960, como tradutora de literaturas em alemão e inglês. Luft já traduziu para o português mais de cem livros. Entre esses destacam-se traduções de Virginia Wolf, Rainer Maria Rilke, Hermann Hesse, Doris Lessing, Günter Grass, Botho Strauss e Thomas Mann. Formada em letras anglo-germânicas, Lya tem mestrados em literatura brasileira e linguística aplicada plea Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). (fonte: Wikipédia).

 

Vejam que lindo texto sobre MUDANÇAS:

 

Mês passado participei de um evento sobre o Dia da Mulher.

Era um bate-papo com uma platéia composta de umas 250 mulheres de todas as raças, credos e idades. 

E por falar em idade, lá pelas tantas, fui questionada sobre a minha e, como não me envergonho dela, respondi (72).

Foi um momento inesquecível… 

A platéia inteira fez um ‘oooohh’ de descrédito. 

Aí fiquei pensando: ‘pô, estou neste auditório há quase uma hora exibindo minha inteligência, e a única coisa que provocou uma reação calorosa da mulherada foi o fato de eu não aparentar a idade que tenho? Onde é que nós estamos?

Onde não sei, mas estamos correndo atrás de algo caquético chamado “juventude eterna”. Estão todos em busca da reversão do tempo. 

Acho ótimo, porque decrepitude também não é meu sonho de consumo, mas cirurgias estéticas não dão conta desse assunto sozinhas. 

Há um outro truque que faz com que continuemos a ser chamadas de senhoritas mesmo em idade avançada. 

A fonte da juventude chama-se “mudança”. 

De fato, quem é escravo da repetição está condenado a virar cadáver antes da hora. A única maneira de ser idoso sem envelhecer é não se opor a novos comportamentos, é ter disposição para guinadas. 

Eu pretendo morrer jovem aos 120 anos. 

Mudança, o que vem a ser tal coisa? 

Minha mãe recentemente mudou do apartamento enorme em que morou a vida toda para um bem menorzinho. 

Teve que vender e doar mais da metade dos móveis e tranqueiras, que havia guardado e, mesmo tendo feito isso com certa dor, ao conquistar uma vida mais compacta e simplificada, rejuvenesceu. 

Uma amiga casada há 38 anos cansou das galinhagens do marido e o mandou passear, sem temer ficar sozinha aos 65 anos.

Rejuvenesceu.

Uma outra cansou da pauleira urbana e trocou um baita emprego por um não tão bom, só que em Florianópolis, onde ela vai à praia sempre que tem sol. 

Rejuvenesceu. 

Toda mudança cobra um alto preço emocional. 

Antes de se tomar uma decisão difícil, e durante a tomada, chora-se muito, os questionamentos são inúmeros, a vida se desestabiliza. 

Mas então chega o depois, a coisa feita, e aí a recompensa fica escancarada na face.

Mudanças fazem milagres por nossos olhos, e é no olhar que se percebe a tal juventude eterna. 

Um olhar opaco pode ser puxado e repuxado por um cirurgião a ponto de as rugas sumirem, só que continuará opaco porque não existe plástica que resgate seu brilho. 

Quem dá brilho ao olhar é a vida que a gente optou por levar. 

Olhe-se no espelho… 

2 thoughts on “A idade e a mudança

  1. Vera

    Muito bom, concordo em gênero, número e grau. Quando temos coragem de mudar, claro que pra melhor, podemos sofrer até que todos os ajustes sejam feitos, mas depois, ahhhhhhhh, é visível nossa alegria de viver.

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