Hora de Mudar

O Homem de Moletom (Mário Prata)

 

 

 

Não sei o nome dele, nem onde mora. Mas ele mora perto. Perto dali.

Dali, onde está acontecendo alguma coisa.

Acidente na esquina. Dois carros batem. Motoristas descem, olham, conversam.

Vai juntando gente, curiosos. Quando você menos espera, ele aparece: O Homem de Moletom. Ele não se envolve diretamente com o fato. O Homem de Moletom é coadjuvante. Coadjuvante sem fala.

Ele observa.

A prefeitura chega com seus caminhões para tapar um buraco no meio da rua.

Curiosos vão se juntando. Populares param. Transeuntes indagam, curiosos até fotografam. E ele, observa. Ninguém nunca viu de onde surgiu o Homem do Moletom. Nem a hora exata da sua chegada. E, de repente, ele some.

Fila para comprar ingresso para o jogo de futebol. Dezenas de torcedores se acotovelam tentando os bilhetes. Na foto, à direita, a uns dez metros de distância, ele. Com um moletom que não é nem palmeirense, nem corintiano.

Favor não confundir o meu Homem do Moletom com o Popular, do Luis Fernando Veríssimo. Há uma característica básica que os diferencia. O Popular está sempre com aquele embrulho debaixo do braço. Um embrulho que nem mesmo o Veríssimo sabe o que tem dentro. Já o meu Homem do Moletom não leva nada nas mãos. Mesmo porque o Homem do Moletom – pode observar – está sempre com as duas mãos nos bolsos. Ele não fuma, não leva pacotes e não vai cumprimentar ninguém. Mãos nos bolsos.

Mas não é apenas nos pequenos acidentes perto da casa dele onde podemos vê-lo. E não apenas em São Paulo. Não sei se ele são vários ou se é muito rápido.

Já foi visto num treino da seleção brasileira lá nos arredores de Paris. No jogo ele não foi, tenho certeza. Mas no treino, sim. O Homem de Moletom não aparece nos megaeventos. Não, ele gosta é dos pormenores. A poda de uma árvore, uma loja de disco no centro da cidade. Ele não fica na porta da loja, ouvindo. Ele fica do outro lado da rua, vendo.

Pensando bem, agora, aqui, ao imortalizar de vez o Homem de Moletom e fazendo uma retrospectiva de todas as vezes que o vi, devo admitir que ele nunca está num local que tenha mais de 30 pessoas. E posso até imaginar por quê. É que se muita gente houver, pode ter mais de um Homem de Moletom. Aí ele perde a sua identidade, clonado por um curioso qualquer.

E mais: nunca vi o Homem de Moletom encostado num poste. Seria integrá-lo demais ao cenário. Também não se senta, o Homem de Moletom.

É eclético o nosso homem. Já o vi com bigode e sem bigode. Já apareceu careca ou cabeludo. Gordo ou magro. Mas nunca muito jovem ou muito velho. O Homem de Moletom tem entre 40 e 45 anos, posso garantir e se você observar quando ele aparecer aí perto da sua casa, more você onde morar, vai concordar. Outra coisa: ele não bebe. E nem fuma. Está sempre sóbrio. Sim, a função dele é observar. Não é interferir, é observar. Se ele falar alguma coisa, fizer uma pergunta, dar um palpite, ele deixa de ser o meu Homem de Moletom. É um falso.

Outra coisa. Embora goste de aparecer mais no começo da manhã ou fim da tarde, ele não tem horário. Já o vi uma vez, de madrugada, nos anos 70, quando uma bomba explodiu dentro de um carro na Consolação, lá embaixo. Em frente do Pink Hotel, 4 da manhã, um calor desgraçado e ele já. Do outro lado da rua, como convém. Em atitude, devo admitir, suspeita.

Aliás, essa é outra característica do meu Homem de Moletom. Se você observar bem a postura dele e o olhar que meneia à procura de detalhes, pode achá-lo suspeito. O problema aqui é: suspeito, sim. Mas suspeito do quê?

Simplesmente suspeito.

Estou escrevendo isso aqui porque hoje eu vi uma foto do nosso presidente de moletom. Mas não era o Homem de Moletom. Era o presidente do Brasil descansando em Ibiúna, de moletom. Mas olhando bem, na foto, ao fundo, tem um outro sujeito. Aquele sim, o que observa, é o verdadeiro Homem de Moletom.

Sim, porque o presidente, apesar de ficar sempre um pouco afastado dos principais fatos, apesar de nunca falar nada e nunca perguntar nada, apesar de nunca sabermos o que é que ele está fazendo lá, apesar de parecer que está lá, ele não está, apesar de tudo isso, falta-lhe a postura.

Ele não é o Homem de Moletom. Porque o verdadeiro, o nosso personagem, não faz a mínima questão de querer agradar e nem de dizer que está dando tudo certo e que o país é uma potência que está sendo descoberta e admirada lá fora.

O Homem de Moletom pode ser tudo. Menos bobo.

 

 

PS – Na última crônica, onde leu-se “footing”, leia-se “fútim”. Footing rola na pracinha de Oxford ou Harvard. Aqui na USP, na PUC e na minha pracinha é fútim mesmo!

 

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